A Voz do Profissional

Renato Farias, apresentador do Canal Saúde da Fiocruz, fala sobre como a linguagem acadêmica pode atingir um público maior

Em 28/05/2018 10:16

Entrevista por ABEU

A Voz do Profissional

A 31ª Reunião Anual da ABEU se encerrou na última sexta-feira, 25 de maio. Mas continuamos a entrevistar, na coluna A Voz do Profissional, os participantes das rodas de conversa no evento. Esta semana conversamos com Renato Farias, que participou da mesa “Quais prateleiras, quais alcances?”, que debateu sobre estratégias para levar os livros acadêmicos além dos muros da academia. Farias integra a equipe do Canal Saúde da Fiocruz, onde apresenta os programas semanais Sala de Convidados, UniDiversidade e Ciência & Letras, este sobre literatura científica e literatura em geral, em parceria com a Editora Fiocruz. Tem graduação em odontologia e pós-graduações em saúde pública e preparação corporal. É ator e diretor da Companhia de Teatro Íntimo.


Na entrevista ele comenta sobre formas de adaptar o discurso engessado da academia para um público mais amplo, facilitando o acesso do que é produzido no âmbito universitário. 


1) Com uma longa trajetória à frente do programa Ciência & Letras, no Canal Saúde, em parceria com a Editora Fiocruz, como você acredita que é possível estabelecer um diálogo entre os autores de livros acadêmicos e o público em geral?

Se estamos pensando em diálogo, vejamos quais os atores envolvidos nessa relação. 
O primeiro, o autor do livro, deve estar atento à necessidade de rever sua linguagem acadêmica para dar início ao diálogo. Geralmente a escrita para os pares não é atraente para o público em geral. 
Depois, é preciso pensar nos meios pelos quais se dará este diálogo: os diversos canais de comunicação. No caso específico onde trabalho, mantemos uma interlocução permanente entre a Editora Fiocruz e o Canal Saúde para azeitar nossos mecanismos de “sedução”, não só do público acadêmico, mas também do público em geral. 
E, por fim, o próprio “público em geral”, que nem sempre está acostumado à leitura de “literatura em geral”, quiçá de livros acadêmicos que não sejam de sua área (quando há) de interesse profissional. 
Vivemos num país onde há menos de 30 anos o ensino fundamental foi universalizado. O ensino superior, segundo o último censo, atinge menos de 8% da população. Sem uma educação pública universal e de qualidade dificilmente teremos um país de leitores. Especialmente quando pensamos em um mercado editorial diversificado.
Como sou um leitor privilegiado dos livros da Editora Fiocruz, posso afirmar que a preocupação com uma linguagem mais acessível é constante em suas publicações. Mais claramente em coleções como “Temas em Saúde”, mas certamente na sua linha editorial como um todo. Apenas eventualmente percebo que a transformação de uma pesquisa em livro não logrou uma maior fluência para a leitura por não acadêmicos. 
Mesmo com essa preocupação de autores e Editora, ainda são necessários meios para a divulgação dessas obras. Um desses meios, felizmente não o único, é a televisão. E cada vez com maior alcance, a partir da posterior reprodução de seus programas na internet. 
Aí, a discussão recai sobre a concentração dos meios de comunicação nas mãos de interesses privados que, a não ser em momentos de crise sanitária ou de outros eventos percebidos por eles como midiáticos, via de regra não se interessam por assuntos mais “sérios”. 
Em uma rápida pesquisa sobre programas de entrevistas sobre literatura no Brasil, encontrei mais de 30 títulos. Tanto em canais a cabo, quanto em TVs locais, universitárias e outros canais públicos. Sem mencionar programas de rádio e youtubers especializados na área.
Os de canais a cabo, mesmo com maior liberdade e espectro de interesse, muitas vezes tendem a seguir os padrões dos canais abertos, questionando sempre o quanto uma entrevista poderá render em termos de audiência. Audiência compreendida como: autores já consagrados ou que tenham escrito sobre algo que possa causar polêmica. 
Entre os canais públicos, que buscam ampliar o espectro de interesse, temos o Canal Saúde e, dentro da programação do Canal Saúde, especificamente, o Ciência & Letras.
Quanto ao Canal Saúde, as limitações financeiras para divulgação de nossa programação é um entrave para um maior alcance de público. 
Quanto ao Ciência & Letras, que completa 10 anos em 2018, logo cedo compreendemos que uma das estratégias para aproximar o público não acadêmico de nossa programação seria ampliar a pauta para falarmos também sobre literatura em geral, poesia, filosofia, cultura e, eventualmente, também convidando autores que têm sua obra bastante repercutida nos meios digitais. 
Ao conhecer o programa a partir de seus interesses literários, o público descobre que há outros programas que também podem ser interessantes. 
Aqui, o entrave para um maior alcance e compreensão do imenso acervo que possuímos é o site do Canal Saúde que, atualmente, está passando por uma reformulação. É preciso modernizar as ferramentas de busca e navegação. Inclusive está em fase de testes um aplicativo para que seja possível assistir os programas pelo celular. 
No momento em que escrevo, o Ciência & Letras se aproxima de 500 programas gravados. Mas sua disposição em nosso site ainda não os apresenta por temas de interesse, ou por autor, ou por qualquer outra forma que explicite a pluralidade e a vastidão de nosso acervo.  
Entretanto, creio que, apesar das limitações, temos sido um meio importante para diminuir as distâncias entre o público em geral e os livros acadêmicos. 
Daí para chegarmos a um diálogo teríamos que ir além da mensuração de audiência e constatação de preferências. E, sim, escutar o que dizem nossos leitores/espectadores. 
Eis aí o grande desafio! 


2) Que sugestões você daria aos editores de livros acadêmicos, em particular as editoras universitárias, para ampliar o seu alcance “além muros”?

Sempre que me deparo com questões como essa, tendo a responder: chame alguém bem jovem. Nós, os mais antigos, que tivemos que migrar do pensamento analógico para o digital, ainda propomos caminhos e soluções ancoradas em um mundo que praticamente já não existe mais.
Há profissionais mais jovens que já nasceram sob o signo das novas tecnologias de informação e comunicação e que pensam a comunicação a partir de um novo paradigma que, mesmo em construção, já superou o que nos formou.
Da mesma forma, assim como as universidades que, muitas vezes, não conseguem extrapolar os próprios muros, as editoras também enfrentam o desafio de estarem mais atentas às movimentações e desejos da sociedade. E, assim como em relação às pesquisas que a universidade faz, cabe aos pesquisadores se perguntarem constantemente: para quem escrevo e por quê?
Um exemplo é o grande grito de identidade lançado nos últimos anos pelas escritoras negras brasileiras. Na base da pirâmide social, as mulheres negras nos apresentam uma literatura que revoluciona nosso ponto de vista patriarcal e eurocentrado.
Cada vez menos é aceito um olhar que não pertence ao mundo que está exposto na escrita. O que Djamila Ribeiro nomeou “lugar de fala”. E a partir daí só tenho perguntas.
Como se desenvolve esta questão quando pensamos nas editoras universitárias? Qual é o seu lugar de fala numa sociedade que se movimentou nas últimas décadas trazendo para a visibilidade a escrita de pessoas que até então tinham porta vozes que, muitas vezes, carregavam seus preconceitos para suas histórias? Qual o lugar de fala da universidade brasileira hoje, quando negros e negras e, ainda em muito menor número, indígenas, chegam aos seus campi?
Este não é o único caminho a investigar, mas uma constatação de que não vivemos mais no mesmo país e, talvez, tenhamos que rever o sentido de nossas universidades e sua produção literária.
Sem nunca abandonar a questão: para quem seguimos escrevendo?
 


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