(Des)envolvimento insustentável na Amazônia Ocidental: dos missionários do progresso aos mercadores da natureza

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SINOPSE

APRESENTAÇÃO: No auge do verão de 1984, saí de uma passeata no centro do Rio de Janeiro – se não me engano, momento inaugural das jornadas de rua que marcaram o movimento pelas “Diretas Já” no Brasil – para tomar o avião que me levaria pela primeira vez para a Amazônia, mais precisamente para Rio Branco, Acre. Na despedida, um dos companheiros do movimento estudantil, com um sorriso maroto estampado no rosto e a irreverência peculiar dos cariocas, perguntou-me se meu objetivo era “organizar os caçadores de onça”. Respondi que minhas pretensões eram bem mais radicais: “organizar as onças para se defenderem dos caçadores”. Passadas duas décadas, a impressão que tenho é a de que embora o estereótipo tenha sido pouco alterado, o “CentroSul” já não percebe a região amazônica somente como lugar de “onças e caçadores”, o imaginário agora está recoberto por um vocabulário novo: “biodiversidade”, “reservas extrativistas”, “terras indígenas”, “povos da floresta”, “Chico Mendes”, “Raoní”, “desenvolvimento sustentável”, “Florestas Nacionais-FLONAS”, “manejo de recursos naturais”, “selo verde”, “biopirataria” etc. Contudo, parece ainda pouco alterada a indiferença em relação ao que efetivamente ocorre nesse território. Salvo eventuais denuncias de desmatamentos, trabalho escravo, assassinatos de camponeses, índios e religiosos ou representações entusiásticas de viajantes contemporâneos, os velhos problemas acabam embaralhados nas seduções de vocábulos novos, concorrendo, assim, para manter a Amazônia cada vez mais desconhecida, não só do Brasil, mas o que é ainda mais grave, de si mesma, na medida em que parte substantiva de seus habitantes incorpora uma imagem que não condiz com suas reais condições de vida. Este livro é permeado por essas inquietações. Em linhas gerais, mostra que tanto na fase comandada pelo “Estado desenvolvimentista” quanto naquela que a sucedeu, caracterizada pelo predomínio político e ideológico de doutrinas defensoras do “mercado” como esfera privilegiada de regulação, as políticas e estratégias de desenvolvimento adotadas na região amazônica não diferem na sua essência: reprodução das bases materiais de um “desenvolvimento insustentável”. Enquanto na primeira fase tal insustentabilidade ficou evidente nos resultados socioambientais perversos, constituindo-se em motivo de forte reação dos movimentos sociais no campo e de organizações ambientalistas, que os denunciaram ao mundo; na segunda, a continuidade da exploração predatória da natureza e o agravamento das condições de vida da maioria da população não são evidenciados, isto é, não sofrem oposição equivalente, ao contrário, são aceitos como “alternativa única” pela maioria daqueles que outrora os criticaram. A projeção de uma imagem invertida do real através dos aparelhos de hegemonia – incluindo, diga-se de passagem, um “transformismo” de largo alcance – somado a fatores de ordem econômica estrutural compõem parte das explicações para a obtenção desse consentimento ativo por parte dos “mercadores da natureza”. O conteúdo analítico dessa abordagem não expressa somente a materialização dos resultados de uma pesquisa realizada em um período determinado. As opções teóricas que orientaram a elaboração da tese que originou este livro (Estado e Desenvolvimento Insustentável na Amazônia Ocidental: dos missionários do progresso aos mercadores da natureza – CPDA/UFRRJ, 2003), bem como as definições acerca do objeto de pesquisa associam-se em grande medida a uma visão de mundo construída não apenas através da frieza de um esforço individual de leituras e do cumprimento de “rituais acadêmicos” mas, sobretudo, pelo calor de uma trajetória política compartilhada com inúmeros militantes que ousaram sonhar com a emancipação humana e fazer desse sonho o motivo maior de suas existências. Com os companheiros e companheiras de jornadas estudantis na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1978-1983) tive a feliz oportunidade de aprender a “sonhar coletivamente” e redescobrir o sentido da vida. Valores como liberdade e solidariedade não figuravam apenas na retórica, repercutiam necessariamente no cotidiano da sociabilidade no campus. Nos alojamentos (como o 237), o número de ocupantes “clandestinos”(“acochambrados”) chegava a superar em 50% o número de vagas estabelecidas oficialmente. No Restaurante Universitário (“bandejão”), era comum a divisão de uma refeição para duas pessoas afim de enfrentar os “apertos financeiros”. Havia sempre alguém disposto a dar uma “força” aos colegas na elaboração de trabalhos e em estudos preparatórios para avaliações acadêmicas. Com uma vida cultural marcada ainda pela riqueza da integração entre pessoas de origens sociais e lugares diferentes (praticamente de todos os estados brasileiros e de muitos países latino-americanos) e por inúmeros eventos como Shows com o “pessoal mais engajado” da MPB, festivais de música, encenação de peças teatrais, exibições de filmes, festas, “rodas de viola” etc, acabou se formando aquilo que denominava-se na época uma “república ruralina”. Essa “república” não era fechada, estava atenta ao que acontecia no país e no mundo: participava da luta mais geral contra a ditadura militar, do movimento de fundação do Partido dos Trabalhadores, da legalização dos partidos comunistas, formava comitês de solidariedade à Revolução Sandinista na Nicarágua, denunciava a devastação da floresta amazônica e os assassinatos de lideranças camponesas que lutavam pela Reforma Agrária em todo o país. Na companhia dos integrantes do MSTR no Acre, de lideranças sindicais oriundas de toda a região amazônica – que passaram a integrar o Conselho Nacional dos Seringueiros a partir do final da década de 1980 – e dos “intelectuais orgânicos” envolvidos em assessorias diretas ou indiretas a esse movimento, tive a oportunidade de olhar de “dentro para fora” a dramática luta de resistência pela terra. A curiosidade suscitada em torno de algumas “questões regionais”, bem como o desejo de contribuir teoricamente para o direcionamento da luta pela Reforma Agrária acabaram motivando-me a buscar uma especialização acadêmica. No CPDA/UFRRJ encontrei em diferentes momentos (1988-90 e 1999-2002) um ambiente propício – marcado por uma interlocução crítica e estimulante – para amadurecer essas reflexões. Finalizo esta apresentação agradecendo, portanto, a todas aquelas pessoas que contribuíram de forma direta ou indireta para a elaboração deste livro. Agradeço, em particular, às lideranças sindicais, servidores do INCRA, bibliotecários e arquivistas que me atenderam durante a pesquisa. Ao meu orientador, Renato Maluf, pelos ensinamentos e, sobretudo, pelas sugestões de ordem prática e teórica sempre marcadas por um diálogo franco e por um elevado espírito de tolerância. A Sônia Mendonça (UFF), Nelson Delgado, Regina Bruno, Raimundo Santos (CPDA), Henri Acselrad (UFRJ) pelas valiosas críticas e sugestões. Ao amigo Alberto Moby pela correção da Tese. A minha irmã, Dilma (Instituto de História/ U.F. Uberlândia), tanto pelo incentivo permanente quanto pelas correções e sugestões para esta edição. Aos professores e amigos da UFAC: José Porfiro, Sheila Palza, Mauro César, Francisco Bento, Célia Collet, Gerson, Jones, Sandra Basílio, Moema, Robson Braga, Jacó Piccoli, João Lima, Vicente Cerqueira, Isac e Dalmir pelo apoio nos momentos diversos. À querida companheira Marineide, pela compreensão e solidariedade. A minha adorável mãe D. Elza, Dilza, Elzinha, Dilson, Mirian, Roberto, Rodrigo, enfim, a todos os meus familiares, amigos e amigas pelo carinho e estímulo constante. Um agradecimento especial a Rômulo Andrade e Marisia pela presença e apoio constante nessa jornada.