ABEU Reflete de 27 de maio de 2020 - André Lemos

Os últimos textos da coluna ABEU Reflete trouxeram preocupações bem atuais dos seus autores, principalmente em relação à atual pandemia da Covid-19. No entanto, o artigo desta semana vem tratar de outro tipo de epidemia que também faz parte do debate público atual e que também se espalha de forma descontrolada: as fake newsAndré Lemos, professor titular da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e pesquisador 1A do CNPq, lista medidas importantes que devem ser tomadas por organizações civis e pelo poder público para controlar a disseminação de desinformação nos meios digitais.

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Fake news

Há quinze dias, um manifesto dos profissionais de saúde do Brasil, e de uma dezena de países, apontava as fake news (FN) como uma “infodemia”, uma epidemia nociva de informações falsas. Para impedir essa ação nefasta seria imprescindível ações para “conter a disseminação mortal de desinformação e fazer com que as redes sociais parem de adoecer as nossas comunidades”. Recentemente, como uma das formas de contenção dessa “infodemia”, o Sleeping Giant Brasil chegou ao Twitter, visando minar financeiramente os sites e publicações que veiculam e produzem FN.

O termo (infodemia) é muito apropriado, já que estamos vendo essa pandemia informacional bem presente hoje na política brasileira, disseminando-se rapidamente pelas redes sociais da internet, principalmente Twitter, Facebook e WhatsApp. Uma pesquisa publicada em 2018 na Science mostra que conteúdos falsos circulam muito mais do que informações verdadeiras.

Vou destacar rapidamente quatro aspectos fundamentais para entender as FN: 1. Precisamos entender as materialidades do digital para montar a rede das FN; 2. FN funcionam por cadeias de referência imprecisas, confusas, sem  capacidade de sustentação racional. Sua sustentação é religiosa; 3. As formas de luta se dão por ação educacional, técnica, jurídica e de checagem e; 4. Como uma forma interessada e enviesada de dirigir a discussão pública, as FN constituem-se como uma “política falsa”. 

1. Sobre materialidade

Se pensarmos FN apenas como mentiras ou boatos, não vamos entender o fenômeno na sua integralidade. Elas podem ser definidas como ações intencionais, sem lastro em cadeias de referências sólidas (verdade), criadas para atingir grupos ou pessoas, tendo como motor a lógica da performatividade algorítmica das redes sociais, indo muito além do boato, ou do erro jornalístico, minando o debate político e produzindo engajamento não republicano voltado a interesses particulares (pessoas ou grupos).  O objetivo é deturpar a realidade para disseminação de informação falsa, a grupos/pessoas específicos, com o intuito de induzir determinados comportamentos, fomentar posições políticas ou criar desmobilização. É um fenômeno da internet e das redes sociais. Sem entender as materialidades das redes sociais, não entendemos completamente esse fenômeno.

2. Sobre cadeias de referência

As FN são construídas, na maioria dos casos, como uma simulação de notícias, ancoradas em falsas cadeias de referências. Ciência e jornalismo funcionam por cadeias de referências (experiência, dado, fato, testemunho, comprovações...) auditáveis. Podemos checar. A verdade é esse enunciado forte, baseado em boas cadeias de referência. As FN não são “verdadeiras” justamente por serem construídas em um simulacro de notícia, por falsas cadeias de referência que podem ser facilmente demolidas. Mas se é fácil demolir essas falsas cadeias de referência, por que as FN são tão nocivas? Porque a forma de circulação nas redes sociais não se dá pela razão (sujeito racional que vai verificar se a notícia é mesmo verdadeira), mas pela adesão religiosa. Bolhas e nichos não querem checar nada, apenas reforçar estereótipos, ideologias e visões de mundo. Nessas bolhas, as cadeias de referência importam pouco. O que conta é o reforço identitário mobilizado pela lógica algorítmica das redes sociais. 

3. Sobre as ações

O que pode ser feito? Ações educacionais, técnicas, jurídicas e de checagem.É fundamental compreender a nova dinâmica da cultura digital. Devemos entender que o que emitimos ou recebemos pelas redes sociais não é neutro, sendo fruto de uma agência algorítmica performativa visando produzir perfis de uso e focar ações publicitárias, políticas, policiais...As empresas de tecnologia devem minimizar o alcance das FN, dando menor visibilidade a páginas que compartilham conteúdo falso, criando iniciativas de verificação e banimento de perfis. Muitas estão tomando iniciativas para checar, bloquear e cancelar contas, mas ainda é pouco. Iniciativas de regulação estão na mesa e muitos países já adotaram medidas nesse sentido. Em 2019, 16 países já possuíam leis contra as FN e o número é crescente com a pandemia da Covid-19. No Brasil, desde 2018 há projetos de lei em apreciação, mas não há uma legislação federal. Agências de checagem, governos, plataformas de tecnologia, grupos (como o Sleeping Giant Brasil, citado no início desse texto) estão ajudando a detectar FN, levando os usuário para as informações verdadeiras, ou empresas para ações mais responsáveis. 

4. Sobre Política

A política é forma de circulação da palavra para o debate e a busca de consensos racionais mínimos em prol do comum. Essa circulação se dá, na era moderna, tendo como pilares do regime democrático de direito a liberdade de expressão e a pluralidade de informação. A esfera pública deve ser informada para alicerçar o debate e fomentar ações de interesse público. 

As FN geram ação politicamente enviesada por interesses particulares, sendo uma forma de direcionamento da circulação da palavra minando o bem comum. Elas produzem afetações fáceis (ódio, amor), gerando ações que reforçam a lógica identitária e religiosa da bolha. As FN, portanto, não mobilizam a palavra no sentido republicano. Ela excita afetos particulares, deturpando o debate e degradando a esfera pública.

André Lemos

Professor titular da Facom/UFBA

Pesquisador 1A do CNPq

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