Como estruturar uma editora universitária

Orientações básicas para estruturação de uma editora universitária


Algumas sugestões para estruturação de uma editora universitária passo a passo

 

A ABEU apresenta a seguir algumas considerações, à guisa de sugestão, sobre como estruturar a fase inicial de uma editora universitária. É sabido que cada instituição tem as suas características, os seus princípios, os seus objetivos, e a partir deles formulará sua estrutura editorial. A intenção aqui é a de desenhar algumas linhas básicas que sirvam como subsídio para aqueles que estejam encarregados da estruturação de uma editora universitária.

 

Editora universitária

 

A denominação geral de editora universitária carrega a ideia de editora baseada não só em uma universidade, mas em qualquer instituição de educação superior (IES) ou de pesquisa. Assim, nessa categoria também estão incluídas editoras de faculdades, de centros universitários e de institutos de pesquisa. Editoras levam a efeito projetos de publicação de livros, no caso das universitárias, de publicação do conhecimento gerado pelas pesquisas acadêmicas nas IES ou nos institutos de pesquisa.

Entretanto, essa concepção – a vocação de publicar o conhecimento gerado pela investigação acadêmica – é um tanto ampla e merece ser circunscrita: qual conhecimento será editado como livro? A resposta deverá ser dada por aqueles que estão a elaborar o projeto da editora, isto é, também constituirá a linha editorial da editora. Entretanto, deve ser considerado que não se podem editar livros com conteúdo de significativa importância porém destinados a serem lidos por meia dúzia de especialistas no assunto. Quer dizer, para um livro ser editado deve-se ter para ele a perspectiva de um número razoável de potenciais leitores.

Os tempos andam difíceis, o País tem sido o que se vê, aliás, muito do que está à vista de há muito se vê. Nessas condições, criar uma editora em uma IES poderá parecer algo de difícil concretização, a requerer várias centenas de milhares de reais e significativos recursos humanos. Até pode ser dessa forma, ou seja, instalar a editora com investimento financeiro expressivo e com corpo funcional amplo. Mas não precisa, dir-se-ia até, não deve, ser dessa forma. Veja-se a seguir uma proposta perfeitamente exequível de implantação de editora universitária, num primeiro momento com estrutura compacta, mas que lhe possibilitará um crescimento gradativo conforme as demandas no correr do tempo.

 

 

 

De passo em passo

 

O fazer editorial é atividade de resultado percebido nos livros publicados, e tal resultado vai se efetivando gradativamente. Edita-se um livro, depois outro, a seguir mais um e assim sucessivamente, num trabalho quase miúdo de produzir um a um e assim, pouco a pouco, começar a se formar um catálogo, logo, a editora. Essa seria a proposta enxuta de implantação de uma editora universitária, o que não requer aporte de significativos recursos monetários e humanos. É o que se pode chamar de iniciar escritório editorial: editora será um escritório editorial.

 

 

Editora como escritório editorial

 

São duas as etapas de produção de um livro: a de pré-impressão e a de impressão. Esta última é executada por uma gráfica, que é indústria manufatureira. Ela é absolutamente prescindível na implantação de uma editora universitária, isto é, editoras universitárias não necessitam de gráfica própria, pois o serviço de impressão pode ser terceirizado. Então, é aspecto que parece claro: uma editora universitária não carece de possuir gráfica própria.

Partindo dessa condição, o centro da estrutura da editora que se instalará deverá ser a pré-impressão – constitutiva do cerne do trabalho editorial. Portanto, o fundamental será atentar, a princípio, à congregação dos recursos humanos que desenvolverão gradativamente essa etapa da produção editorial.

A equipe inicial será composta por três pessoas que desenvolverão as seguintes funções: uma de editor, uma de secretário executivo e uma de diagramador – os componentes do núcleo do trabalho editorial.

Uma vez que se tenha estruturado e dado início ao processo editorial, já com a publicação de alguns títulos em alguns meses, a equipe deve ser acrescida de um funcionário responsável pelo trabalho de distribuição e venda das publicações. Conforme a necessidade, a ser avaliada no correr desses primeiros meses, eventualmente pode ser agregado à equipe alguém com a função de editor-assistente, para atuar associado ao editor. Essa seria uma proposta econômica para dar início a uma editora universitária. Enfim, o dito escritório editorial. Pode-se ver que um conjunto de indivíduos assim precisará de um espaço físico de algo em torno de 60 m2 para trabalhar confortavelmente, equipado com dispositivos de trabalho de um escritório, com o detalhe de ter instalado em um computador um programa profissional de edição de textos para diagramação de livros. Para se ter uma ideia quantitativa de produção, aquela equipe inicial de três colaboradores (editor, secretário executivo, diagramador) poderá, sem atropelos, produzir até dez livros num ano.

 

O imprescindível conselho editorial

 

É indispensável que ela conte com um conselho editorial constituído por pessoas que tenham alguma afinidade com os livros, sejam leitores habituais e valorizem o livro como repositório cultural e científico. Não deve ser formado por um número elevado de componentes. Pode-se pensar algo em torno de cinco ou sete conselheiros. Qual é a função desse conselho editorial?

Será precisamente esse colegiado que irá dizer quais serão os títulos que a editora publicará. Aquele que deseja publicar uma obra de sua autoria pela editora deve encaminhá-la à análise desta. Entenda-se, com efeito, que essa avaliação crítica dos originais de um livro cabe ao conselho: será ele que, feita a análise, se manifestará dizendo se a obra deve ou não ser publicada com o selo da editora. Naturalmente, o colegiado valer-se-á de opiniões de pareceristas ad hoc para decidir. Cada conselho editorial estabelece sua própria forma de trabalho, a dinâmica para desenvolver sua atividade analítica.

 

Cada um com o seu cada qual

 

Qual seria exatamente a função de cada um daqueles integrantes da editora, antes mencionados, no processo de edição na fase pré-impressão?

  • O editor é aquele que recebe os originais do livro do autor (após aprovação pelo conselho editorial), com ele estabelece condições para edição (como se configurará o livro, qual a tiragem, direitos autorais etc.) e faz a contratação (contrato de edição com o autor onde constam as condições para publicação). Depois, esboça um projeto gráfico para o miolo do livro e acompanha todos os passos do trabalho de pré-impressão. Isso quer dizer que contrata o revisor [terceirizado] que fará a preparação dos originais, e encaminha esses originais preparados ao diagramador [funcionário] com as recomendações sobre como cuidar da diagramação (também dita editoração ou paginação do livro); contrata o designer [terceirizado] que fará o projeto gráfico da capa e com ele discute pormenores do livro visando a estabelecer possível relação do conteúdo com a estética do projeto visual da capa e também desta com o projeto gráfico do miolo. O editor também acompanha o trabalho de diagramação e, uma vez que essa esteja concluída, a examina e leva ao revisor [terceirizado] das provas, revisão essa que hoje já é feita no próprio arquivo eletrônico. Uma vez finalizados o miolo e a capa, encaminha-os ao secretário executivo para orçamentos de impressão e posterior destinação à gráfica. É indispensável notar que o editor não deve ser uma figura passiva do ponto de vista editorial, isto é, não se deve contentar em permanecer à espera de autores que venham à editora trazer obras para publicar. O editor deve proceder proativamente, pensando títulos que possam ser editados, temas que sejam interessantes e autores que os consigam escrever.
  • O secretário executivo é o indivíduo que leva adiante a vida administrativa da editora, sendo responsável, entre outras atividades, pelos contatos com fornecedores, pelo controle financeiro, pelos orçamentos, pela finalização de termos de contratos, por contatos com a mídia e com instituições congêneres etc.
  • O diagramador será o funcionário que operará, no computador, o editor de texto paginando cada obra, cuidando da sua estruturação estético-gráfica. É um técnico.

 

A terceirização de serviços

 

Na fase inicial, diga-se, nos seus primeiros anos, a editora universitária, com significativo proveito, poderá terceirizar serviços. É certo que editoras de maior porte contam com equipe numerosa onde se encontram profissionais de diferentes áreas e suprem as necessidades da pré-impressão. Editoras universitárias menores podem se utilizar de profissionais de diferentes segmentos que podem prestar serviços no campo editorial de forma autônoma, ou como freelance. Os principais são a seguir mencionados.

 

§ Revisor de texto é um técnico. A revisão é um trabalho específico e que somente será executado com qualidade por técnico na área. Assim, um professor de língua portuguesa saberá revisar sintática e ortograficamente um texto de um estudante; mas provavelmente não será um bom revisor editorial, porque essa atividade vai além da correção de erros de português no texto. É recomendável que a editora trabalhe sempre com o(s) mesmo(s) revisor(es), que saberão manter os padrões textuais adotados pela editora.

 

§ Capista é profissional das artes gráficas, no caso um designer, que pode fornecer serviços à editora de forma autônoma. É recomendável, nos primeiros anos, trabalhar sempre com um mesmo profissional, pois assim se imprimirá uma identidade visual aos livros da editora.

 

§ Tradutor é outro técnico que também atua como freelance. (Está claro que este é um profissional acionado pela editora quando esta contratou a tradução de um livro adquirindo os direitos de publicação no Brasil de uma editora estrangeira.) O trabalho de tradução de um livro deve ser feito por tradutor profissional, porque se trata de uma delicada atividade técnica: o tradutor tem de dominar plenamente tanto o idioma fonte quanto o destinatário. E se aparecer na editora um professor da IES, doutor, que sugere a publicação de uma obra editada originalmente em inglês, dispondo-se ele mesmo a efetuar a tradução, visto que viveu e se doutorou no Reino Unido e domina o inglês? Deve o editor aceitar a oferta de tradução pelo professor? É recomendável que não, por diferentes motivos; o principal deles é que uma coisa é dominar o idioma fonte para comunicação oral, leitura, estudo e escrita; outra, ter competência para expressar o que está escrito no idioma fonte, inequívoca e elegantemente, na linguagem do destinatário. O editor sempre deve contratar tradutor profissional.

Além desses profissionais especificados, outros terceirizados são muitas vezes necessários na produção de pré-impressão, como ilustradores e fotógrafos.

 

De trâmites burocráticos

 

Cada IES – estatal ou privada – tem sua dependência administrativa. As estatais podem ser federais, estaduais ou municipais. Já as privadas podem ser sem fins lucrativos ou com fins lucrativos. Essas condições podem gerar situações peculiares na dependência administrativa da própria editora, algumas vezes fazendo surgir situações diferenciadas, por exemplo, com relação à emissão de notas fiscais ou de registro CNPJ. Tais trâmites devem ser acertados pela editora diretamente com a área administrativa da sua IES. Entretanto, ao preparar a edição de seu primeiro título a editora universitária deve providenciar na Fundação Biblioteca Nacional, via site, o seu registro no setor de ISBN.

 

Com o gradativo crescimento

 

Uma opção operacional de uma editora universitária poderá ser a de não crescer, permanecer produzindo anualmente o mesmo número de títulos. Sendo essa a opção, a estrutura antes proposta será a necessária e suficiente. Entretanto, de todo modo, mesmo nessa opção, chegará o momento em que o número de títulos publicados já é razoável e, obviamente, a editora passará a carecer de um espaço para acondicionar esses volumes todos, isto é, precisará contar com um local específico para estoque. Então, nesse âmbito talvez seja necessário, a partir daí, contar com mais um funcionário (emparelhado ao que já existia desde o início) estoquista que também atuará na distribuição e nas vendas. Isso também propiciará, com conforto, a criação de uma livraria virtual, com as vendas por essa via de responsabilidade desses dois funcionários.

Também em função do aumento do número de títulos, chega o momento de contar um especialista em marketing e vendas, para melhor fazer chegar ao leitor os livros produzidos, para organizar lançamentos, sessões de autógrafos e a participação em feiras de livros.

Conforme dito, se a editora universitária, com o correr dos anos, mostrar crescimento significativo no número de publicações, a estrutura funcional deverá crescer, e a terceirização de serviços, excetuados os de impressão, será abandonada.

 

Sugerimos que, para uma maior eficiência no trabalho de criação da editora, seja contratado um consultor, a fim de avaliar as peculiaridades da instituição e indicar os melhores caminhos.