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Enlazadas pela educação: o livro acadêmico como ecossistema de aprendizagem

O texto a seguir foi apresentado pelo Prof. José Castilho, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no dia 06 de setembro de 2026. Além de Castilho, a mesa “Enlazadas pela educação: o livro acadêmico como ecossistema de aprendizagem” recebeu a Profª. Carlota Boto e o presidente da ABEU, Prof. Felipe Gomberg.

2 de outubro de 2026
Enlazadas pela educação: o livro acadêmico como ecossistema de aprendizagem

Boa tarde a todas e a todos. É um prazer compartilhar a mesa com minha amiga Carlota Boto e o presidente da Abeu e editor da PUC-Rio Felipe Gomberg, ambos colegas professores universitários.

Agradeço o convite para compor esta mesa e, sobretudo, agradeço a quem formulou o tema com a coragem de colocar em debate o que há de mais vivo — e de mais tenso — na relação entre educação e tecnologia: o livro acadêmico como ecossistema de aprendizagem.

Permitam-me começar por uma franqueza, porque é assim que tenho conduzido minha vida pública e intelectual: a formulação que nos convoca — a do livro tradicional como "objeto físico de aprendizagem", contraposto às textualidades eletrônicas e virtuais como a possibilidade de transformar o livro em um ecossistema de aprendizagem cocriativo — me soa inadequada. Mais do que inadequada: ela foge do problema central do que significa educar, do que significa formar integralmente o alunado.

Não é o suporte que educa. É o encontro.

Suportes são suportes

Um ecossistema de aprendizagem cocriativo pode ter suportes materiais ou virtuais diferentes e diversos, dependendo das possibilidades do território em que a aprendizagem acontece. Uma biblioteca comunitária no interior do Nordeste, uma sala de aula universitária conectada, um sarau de periferia: todos podem ser ecossistemas vivos de aprendizagem. O que os torna vivos não é o dispositivo. É a mediação.

E aqui vale lembrar uma verdade incômoda para os apologistas das novidades, não do novo: o livro sempre foi um ecossistema de aprendizagem. O leitor nunca foi um receptáculo passivo — a história da leitura é a história de leitores ativos, que anotam margens, dialogam com o autor, levam o texto para a roda de conversa, para a sala de aula, para a vida. O códice, o impresso, já eram cocriativos no sentido mais profundo: o sentido só se completa no ato da leitura, que é sempre um ato de autoria. O que muda com o digital são as possibilidades técnicas do encontro — não a natureza do encontro.

Continuo considerando os suportes como suportes — não como soluções para a educação integral da criança e do jovem. E aqui está o ponto que quero defender: considerar que integrar plataformas e conteúdos interativos, recursos multimídia, inteligência artificial e ferramentas de avaliação contínua será a solução para a educação — e em particular para a educação superior — é desconsiderar algo básico, atávico ao ato de educar: não há formação se o educador não possuir, de um lado, o domínio profundo do conhecimento que ensina e, de outro, as habilidades humanas empáticas, que envolvem e criam confiança na relação professor-aluno.

Isso quer dizer: se, em determinadas situações, a educação pode se valer de avançadas ferramentas virtuais voltadas ao ensino, elas, sozinhas, não darão conta de formar um ser integral se não contarem com um formador — com um professor que dê conta do fator humano desse aprendizado.

Não entendo o processo pedagógico como algo em que a técnica ou a tecnologia, analógica ou virtual, seja a principal agente do processo educacional. A educação deve formar, não treinar. E aí está, para mim, o "x" da questão deste tema e do enxame de ferramentas que hoje são oferecidas às escolas como se fossem a eficiência tecnológica que substituirá aquilo que os professores não teriam condições de fornecer.

Que fique claro, para não haver mal-entendido: não sou contra as tecnologias. Sou um entusiasta delas. Mas tecnologia sem o fator humano qualificado controlando-a é um instrumento perigoso de destruição irreversível da possibilidade crítica de pensar. É uma fábrica de imbecis.

Formar e não treinar

O que é aprender? O que é formar? O que é treinar?

A aprendizagem que treina foca na execução mecânica de uma tarefa. A aprendizagem que forma foca no desenvolvimento integral do indivíduo. Vejamos o que cada uma produz.

A aprendizagem que treina — o adestramento, a capacitação — tem por objetivo a produtividade imediata. Foca no "como" fazer algo. Entrega o domínio de técnicas, ferramentas e habilidades repetitivas. Adota uma abordagem mecânica, padronizada, centrada em processos específicos. E tem baixa flexibilidade: se o cenário muda, o treinamento perde a utilidade. Aprender a operar um software de planilhas é treinar.

A aprendizagem que forma — a educação, o desenvolvimento — tem por objetivo a autonomia de longo prazo. Foca no "porquê" fazer algo. Desenvolve o senso crítico, os valores, a ética e a visão sistêmica. Adota uma abordagem humanística, reflexiva, centrada na resolução de problemas complexos. E tem alta flexibilidade: permite adaptar o conhecimento a qualquer situação nova. Compreender a lógica de programação, desenvolver inteligência emocional — isso é formar.

Se estivermos de acordo que cabe às escolas, do fundamental à universidade, formar e não apenas treinar, então o que está realmente em questão é a qualidade do conhecimento que se ensina e se produz.

E aqui não posso deixar de lembrar o que temos visto recentemente no Estado de São Paulo. As denúncias são tristes ilustrações do desprezo atual pela formação de docentes e da exaltação do ideal de treinamento dos alunos em lugar de sua formação. Os dados do Ideb de 2025 são eloquentes: a cidade mais rica do país ficou abaixo da média nacional de aprendizado nos anos iniciais do ensino fundamental — nota 5,8, 18ª colocação entre as capitais — e o ensino médio paulista caiu de posição no ranking nacional, enquanto estados com muito menos recursos financeiros avançam. Metade das escolas paulistanas tem nota média abaixo de 5. No mesmo período, a rede estadual anuncia ferramentas de inteligência artificial para correção automática de tarefas e redações, enquanto milhares de professores ficam sem turma na atribuição de aulas(*).

Porque é dessa decisão político-pedagógica que se trata. Abandona-se a formação de excelência que os profissionais da educação já tiveram nesse estado e força-se a cumprir exercícios virtuais junto com os alunos, em que a construção do raciocínio crítico é substituída pela indução às respostas fechadas que as máquinas exigem para promover o que chamam de aprendizado.

Gastar milhões de dólares em gadgets, com docentes sem conhecimento sólido e bem formados, tem apenas um beneficiário: os produtores de gadgets e os políticos de plantão que arrotam inovação.

A universidade e sua editora

E as universidades? E suas editoras? Qual o papel delas na contemporaneidade, diante dessa encruzilhada entre entender inovação como simplesmente ferramentalizar o ensino sem recursos humanos bem formados — ou repensar-se e realizar aquilo para o que foram fundadas: ser um centro de reflexão crítica aprofundada, produzir conhecimento e interferir profundamente para o bom desenvolvimento sustentável dos seres humanos e do planeta?

Estudar, refletir e produzir conhecimento de alta qualidade científica, tecnológica e eticamente conduzido é o grande desafio de nossas universidades — e a chave para que continuem tendo um papel relevante na sociedade.

Nessa perspectiva, a editora universitária depende do projeto científico e acadêmico de sua universidade para ter uma performance de alto nível, adequada aos tempos contemporâneos, utilizando as tecnologias com rigor crítico e subordinada ao comando das pessoas.

Há 26 anos escrevi um texto que é lido até hoje, e ele diz respeito exatamente a isto: o que definiria uma editora acadêmica no século XXI seria o padrão de qualidade que ela estabelecesse ao seu catálogo (**). Continuo convicto de que este é o melhor caminho para nossas editoras: publicar conhecimento qualificado. Um catálogo é uma promessa de rigor feita à sociedade — e é essa promessa que distingue a edição universitária da simples indústria de conteúdo.

No entanto, entendo também que a editora universitária que conhecemos — inclusive a que liderei até 2015 e que é até hoje muito bem-sucedida — já não é suficiente para difundir os conhecimentos que as universidades produzem. É preciso uma mudança de ótica. E é sobre essa mudança que quero falar agora, para encerrar.

A editora universitária multidimensional

Permitam-me recuperar uma história que atravessa cinco séculos. Em 1534, a Universidade de Cambridge recebeu da Coroa inglesa a Royal Letters Patent que a autorizava a editar e imprimir livros — o que a consagrou como a editora universitária mais antiga do Ocidente e forjou o modelo de publicação acadêmica que conhecemos até hoje: a publicação dos resultados da pesquisa como atividade finalística da universidade, parte constitutiva de sua missão. Pesquisar e difundir o conhecimento para a sociedade que abriga e provê as universidades — essa missão permanece.

Se os séculos 15 e 16 foram eras de transformação na técnica, na forma e no conteúdo das publicações, é indubitável que o século 21 é protagonista de uma nova era de transformações nesse universo da palavra. Minha geração de editores é testemunha ocular dessas mudanças desde a virada do século. No congresso mundial de editores em Buenos Aires, em 2000, já se anunciava: o livro eletrônico, as novas possibilidades de escritura e de autoria, as livrarias virtuais, a entrada de capitais financeiros no comando de conglomerados editoriais e a chegada de novos protagonistas — as companhias de tecnologia.

O que os últimos vinte anos nos ensinaram? Duas coisas fundamentais. A primeira, com Roger Chartier: a "textualidade eletrônica" não tem a mesma equivalência do livro tradicional — ela não substituiu o impresso, mas criou outro registro de transmissão da palavra, cujos desdobramentos ainda estão em aberto. A segunda: todos os indicadores demonstram que estamos apenas no início dessas transformações.

E aqui a pergunta que não cala: qual a chance que a indústria do livro tradicional — o livro da reflexão, da fruição literária, do que forma consciências pela excelência da pesquisa — tem perante este novo mundo, se apenas entrarmos nele como mais uma peça do jogo de consumo ditado por algoritmos? Vejamos um exemplo: a Amazon mantém 15 centros de desenvolvimento de software nos Estados Unidos e 3 no Canadá — 18 na América do Norte. Em toda a América do Sul, um único, em São Paulo. A inovação, hoje, volta-se para incrementar o consumo e a lógica dos mercados — não para formar consciências. Se o jogo é este para atingirmos uma camada expressiva da população que sustenta nossas universidades e centros de pesquisa, precisamos saber como agir nesses novos tempos. Coloco aqui uma possibilidade.

As melhores universidades contemporâneas continuam resilientes às abordagens que querem confiná-las como organizações empresariais, voltadas para produzir com baixo custo a maior quantidade de mão de obra, visando uma rentabilidade própria aos negócios privados, mas estranha à educação de excelência. Como diz Marilena Chauí, a universidade não deveria ser uma "força produtiva direta". Seu compromisso é com o conhecimento autônomo, com o pensamento e a linguagem, com a interrogação e as respostas transformadoras.

Então, como difundir conhecimentos produzidos nesse contexto de resistência para a sociedade? Este esforço não caberia somente às editoras universitárias. É a própria universidade que precisa se rever como produtora e publicadora de conteúdos. Se ela é, de fato, um dínamo que gera conhecimento autônomo e socialmente necessário, toda a informação gerada deveria ser trabalhada de forma unificada, integrando todos os seus canais de comunicação com a sociedade em uma nova instituição: a editora multidimensional.

Para além da editora, mídias multidiversas, multiplataformas, harmonicamente integradas: editora, publicações periódicas, imprensa escrita, televisiva e radiofônica, redes vinculadas à internet, serviços bibliotecários, repositórios, equipamentos culturais — tudo integrado em uma única operação institucional de transmissão do conhecimento universitário, eliminando as fragmentações que se diluem na desigual competição dos nossos dias com os conteúdos gerados pelas Big Techs.

Frente à magnitude das corporações que dominam um mercado editorial que já foi autônomo e livre, caberá mais uma vez às universidades, como há cinco séculos, a ousadia de um novo caminho: a editora acadêmica ampliada, com massa crítica unificada, como um poderoso veículo de comunicação integrado e multidimensional — uma resposta aos simulacros de conhecimento, às fake news, às simplificações e aos negacionismos que atentam contra nossa humanidade com força comunicativa nunca antes experimentada.

Se a universidade souber dar esse passo — entender que sua ação comunicativa no mundo de hoje é tão importante quanto o conhecimento que gera —, contemplará uma de suas mais sublimes missões: educar, formar integralmente o cidadão ao longo da vida. Sendo especialista em sua área científica, cada professor será também um autor e um formador polivalente de cidadania.

Considerações finais

Volto ao começo. O livro acadêmico pode, sim, ser um ecossistema de aprendizagem — mas um ecossistema de pessoas, de mediação e de conhecimento qualificado, que se serve dos suportes, físicos ou virtuais, sem se render a eles. A tecnologia entra na sala de aula e na editora universitária como instrumento sob comando humano — nunca como substituta do formador.

Educar é um ato de confiança e de encontro. É isso que defendemos quando defendemos a formação contra o treinamento, a reflexão contra a resposta fechada, a qualidade do catálogo contra a quantidade de gadgets — e a editora multidimensional como veículo de transmissão do conhecimento que forma o cidadão ao longo da vida.

Obrigado.

José Castilho Marques Neto

Doutor em Filosofia pela USP, professor aposentado na UNESP, pesquisador, editor e gestor público. É consultor internacional na JCastilho - Livro-Leitura-Biblioteca (www.jcastilhoconsultoria.com.br) e conselheiro de várias instituições culturais e educacionais, tendo sido nomeado pelos Ministérios da Cultura e da Educação ao cargo de membro titular do Conselho Diretivo do Plano Nacional do Livro e Leitura – PNLL 2026-2036. Dirigiu diversas instituições culturais ligadas ao livro e a formação de leitores: Editora UNESP (27 anos); Biblioteca Pública Mário de Andrade - São Paulo (3 anos); Secretário Executivo do PNLL do Brasil (8 anos). Presidiu em vários mandatos a Associação Brasileira e a Associação Latino-americana de Editoras Universitárias - ABEU e EULAC. Lançou em 2026 O poder das palavras e outros poderes (Solisluna/Selo Emília) e escreveu livros e artigos em sua área de atuação. A Lei 13.696/2018, da - Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE) - é apelidada com seu nome em reconhecimento ao seu trabalho em prol do livro e da formação de leitores.



Notas:

(*) Os dados do Ideb de 2025 citados têm como fontes os levantamentos jornalísticos da Folha de S.Paulo, G1 e Agência Brasil; as referências à implementação de ferramentas de inteligência artificial para correção automática na rede estadual de ensino têm como fontes os veículos O Globo e Veja SP.

(**) O texto de minha autoria em referência foi publicado em agosto de 2000 na Revista Interface (Unesp) com o título “A editora universitária, os livros do século XXI e seus leitores.”